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Ele ainda guardava o número dela. Só nunca teve coragem de apertar “ligar”.

Mateus ainda sabia o número de Lívia de cor.

Não porque fosse romântico. Não do jeito bonito que as pessoas gostam de contar depois que tudo passa. Ele sabia porque tinha tentado esquecer e falhado tantas vezes que os números viraram cicatriz. Estavam grudados nele como cheiro de chuva em roupa velha.

Toda noite, antes de dormir, ele abria os contatos, parava no nome dela e ficava olhando para a tela acesa no escuro do quarto, como se o celular pudesse responder por ele o que nunca teve coragem de perguntar.

Por que você foi embora daquele jeito?

Por que eu não te impedi?

Por que, mesmo depois de três anos, ainda parece que foi ontem?

O nome dela seguia salvo como sempre esteve: Lívia ❤️.

Ele já tinha pensado em apagar o coração. Depois em apagar o contato inteiro. Depois em trocar para um nome seco, qualquer coisa sem passado. “Lívia Rocha”. “Lívia antiga”. “Não ligar”.

Mas nunca mudou nada.

Naquela quinta-feira, o ventilador girava fazendo um barulho torto, a pia da cozinha estava cheia de copos do dia anterior, e o arroz requentado que ele comia em pé tinha gosto de cansaço. Mateus trabalhava numa assistência técnica no centro, passava o dia consertando celulares de gente que derrubava, molhava, esquecia senha, destruía o que tinha. À noite, voltava para um apartamento pequeno demais para o silêncio que carregava.

Foi enquanto lavava o prato que o telefone vibrou sobre a mesa.

Número desconhecido.

Ele quase não atendeu. Achou que fosse cobrança, golpe, propaganda, qualquer coisa dessas que sempre chegam quando a vida já está cheia demais. Mas alguma coisa — um aperto sem nome — fez com que ele secasse a mão na camiseta e deslizou o dedo na tela.

— Alô?

Do outro lado, só respiração.

Fraca. Contida. Como alguém que estava tentando se manter de pé.

— Alô? — repetiu, mais baixo.

Então veio a voz.

Uma voz rouca, quebrada, mas impossível de confundir.

— Oi, Mateus.

O prato escapou da mão dele e bateu na pia com um estalo seco.

O mundo não parou como dizem nos filmes. Foi pior. Continuou igual. O ventilador seguiu rangendo. Um cachorro latiu na rua. Uma moto passou. E foi justamente isso que quase matou Mateus: perceber que a vida seguia normal enquanto, dentro dele, tudo tinha acabado de desabar pela segunda vez.

Ele precisou apoiar a mão na bancada.

— Lívia?

Silêncio de novo. Depois um choro preso.

— Desculpa te ligar assim.

Mateus fechou os olhos. Durante anos ele imaginou esse momento de mil jeitos. Numa fila de mercado. Numa mensagem às duas da manhã. Num reencontro por acaso na rua. Nunca assim. Nunca com aquela voz de quem parecia ter atravessado um incêndio.

— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou, e odiou perceber que ainda era a mesma voz de antes, a voz que sempre corria para salvá-la antes de entender o tamanho do estrago.

Ela demorou alguns segundos.

— Meu pai morreu hoje cedo.

As palavras bateram no peito dele com um peso estranho. Não porque ele fosse próximo do homem. Na verdade, o pai de Lívia nunca gostou dele. Achava que Mateus era pouco. Pouco dinheiro, pouca ambição, pouca família, pouco futuro. Mas a morte ainda assim abriu um vão entre os dois. Um vão antigo, escuro, cheio de coisas que nenhum deles tinha conseguido dizer enquanto havia tempo.

— Eu sinto muito — Mateus falou, sincero.

Lívia soltou o ar como se estivesse segurando tudo sozinha havia horas.

— Eu não sabia pra quem ligar.

A frase entrou nele como faca.

Não sabia pra quem ligar.

Três anos sem se falarem. Três aniversários passados no silêncio. Três viradas de ano imaginando se ela estava feliz, casada, morando longe, rindo de outras piadas. E ainda assim, no pior dia da vida dela, o dedo encontrou o número dele.

Mateus encostou na cadeira, mas não sentou.

— Onde você tá?

— No hospital ainda. Meu irmão foi resolver a papelada. Minha mãe… minha mãe não para de chorar.

Ele respirou fundo.

— Você quer que eu vá?

Do outro lado, mais um silêncio. Dessa vez mais cruel.

Porque o silêncio dela não era indecisão. Era memória.

Era ela lembrando do dia em que foi embora.

Da mala aberta na cama. Da discussão atrás de discussão nas últimas semanas. Do pai pressionando, dizendo que ela estava jogando a vida fora com um homem que mal conseguia pagar o aluguel. Da proposta de emprego em Belo Horizonte. Do noivo rico que a família dela adorava apresentar como “o homem certo”. E, acima de tudo, do exame escondido dentro da bolsa que Mateus só descobriu tarde demais.

Ela estava grávida quando sumiu.

Grávida de dois meses.

E ele só soube disso porque, dois dias depois de ela desaparecer, encontrou o papel amassado no fundo da gaveta do banheiro que ela tinha esquecido de esvaziar.

Mateus correu atrás. Ligou. Mandou mensagem. Foi até a casa da mãe dela. Foi humilhado pelo pai na porta. Ouviu que Lívia não queria mais vê-lo. Que tinha escolhido “uma vida melhor”. Que era para ele parar de insistir.

Uma semana depois, recebeu uma única mensagem dela.

Me perdoa. É melhor assim. Não me procura mais.

E nunca mais a procurou.

Mas nunca apagou o número.

— Mateus… — a voz dela falhou. — Eu não devia te pedir nada.

— Responde só o que eu perguntei, Lívia.

Ela chorou de verdade dessa vez. Sem força para esconder.

— Eu quero.

Ele pegou a chave do apartamento, a carteira e saiu sem desligar a chamada.

No caminho, a cidade parecia feita de lembranças mal enterradas. O bar onde tomaram chuva e dividiram coxinha às onze da noite. A farmácia onde ela ria dos nomes complicados dos remédios. O ponto de ônibus onde se beijaram pela primeira vez depois de uma briga idiota. Mateus dirigia com as mãos tensas no volante e um passado inteiro acordando no banco do passageiro.

Quando chegou ao hospital, encontrou Lívia sentada sozinha no corredor da emergência, usando uma blusa preta amarrotada e o cabelo preso de qualquer jeito, como se tivesse saído correndo de casa. Ela estava mais magra. Mais pálida. Mais cansada. Mas era ela. Do mesmo jeito que certas dores continuam sendo dor, mesmo depois de mudarem de rosto.

Ela levantou quando o viu.

Os dois ficaram parados, a poucos passos de distância, sem abraço, sem coragem, sem saber se três anos cabiam dentro de um único olhar.

Então Mateus percebeu.

No banco ao lado dela, encolhida, dormindo com a cabeça apoiada numa mochila cor-de-rosa, havia uma menina de uns dois anos e meio, cachos escuros espalhados pelo rosto, uma mãozinha fechada em volta de um ursinho gasto.

E no instante em que a criança abriu os olhos e olhou para ele, Mateus sentiu o chão desaparecer.

Porque a menina tinha os olhos dele.

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#PASS 2

Tem coisa que dói mais quando finalmente faz sentido.
E a verdade que vem tarde nunca chega leve.
No site, essa história parte o peito antes de tentar costurá-lo de novo.

Mateus não conseguiu respirar direito.

Não era semelhança inventada por emoção. Não era carência procurando sinais onde não existiam. Era a curva da sobrancelha, o formato dos olhos, a covinha discreta no queixo. Era como olhar uma fotografia dele mesmo na infância e ver a imagem devolver a vida.

A menina esfregou os olhos, sonolenta, e apertou o ursinho contra o peito.

— Mamãe… — murmurou.

Mamãe.

Lívia percebeu o que ele tinha visto. E pela primeira vez desde que ele chegara, desviou o olhar.

Mateus passou a mão no rosto.

— Lívia… quem é ela?

A pergunta saiu baixa, mas carregada de tudo.

Lívia se abaixou, ajeitou a mochila da menina e respondeu sem encará-lo:

— É a Sofia.

— Eu perguntei quem é ela.

A menina olhou de um para o outro, sentindo o peso no ar mesmo sem entender. Lívia tocou no cabelo da filha.

— Meu irmão vai chegar já já. A gente pode…

— Não. — Ele finalmente a encarou. — Não agora. Não depois de três anos. Me responde.

Lívia fechou os olhos por um segundo, como quem aceita um golpe antes de ele chegar.

— Ela é sua filha.

O corredor inteiro pareceu encolher.

Mateus riu sem humor, um som curto e destruído.

— Minha filha.

— É.

— Minha filha… e você me contou isso hoje? Aqui? Desse jeito?

A voz dele subiu, e Lívia olhou rapidamente para Sofia, assustada que a menina começasse a chorar. Mas a criança só enfiou o dedo na boca e encostou a cabeça no ombro da mãe.

— Eu tentei — Lívia disse, em prantos. — Você acha que eu não tentei?

— Não brinca comigo. Você sumiu.

— Porque me fizeram sumir!

A frase veio alta, cortando o ar.

Mateus ficou imóvel.

Lívia respirava rápido, tremendo dos ombros às mãos.

— No dia em que descobri a gravidez, eu quis te contar. Juro por Deus. Eu estava indo pra sua casa quando meu pai passou mal no escritório. A pressão dele disparou, ele começou a dizer que eu ia matar minha mãe de vergonha, que eu estava acabando com a família, que você nunca ia conseguir cuidar de mim nem de uma criança. Minha mãe entrou em desespero. Meu irmão ficou do lado deles. Tudo virou um inferno.

Ela limpou as lágrimas com raiva.

— Depois meu pai descobriu da vaga em Belo Horizonte e decidiu que eu ia embora. Pegou meu celular. Controlou minhas mensagens. Atendeu algumas ligações suas sem eu saber. Foi ele quem mandou gente te dizer para não me procurar. Foi ele quem falou aquelas coisas na porta.

Mateus sentiu o sangue ferver.

— E a mensagem? A última mensagem?

— Fui eu. — Ela o encarou, sem fugir. — Mas escrevi depois de dois dias sem dormir, ouvindo meu pai dizer que, se eu insistisse em ficar com você, ele me cortaria da vida dele, da casa, de tudo. E eu estava grávida, com medo, sem trabalho, sem coragem… Eu fui covarde, Mateus. Eu fui. Mas eu não deixei de te amar nem por um dia.

Ele virou o rosto. Porque aquela era exatamente a frase que tinha sonhado ouvir, e agora que ouvia, não sabia o que fazer com ela.

— Você teve uma filha minha escondida de mim.

— Eu sei.

— Você me roubou tudo.

Lívia balançou a cabeça, desesperada.

— Não. Eu roubei de nós dois.

Sofia começou a se mexer, incomodada com o tom da conversa. Lívia a pegou no colo, e a menina deitou no ombro dela como quem já tinha se acostumado a adormecer em meio ao cansaço dos adultos.

Mateus olhou para a criança com o coração em ruínas.

— Ela sabe quem eu sou?

Lívia demorou para responder.

— Ela sabe que existe alguém chamado Mateus. Que é alguém muito importante. Que mora nas histórias que eu conto na hora de dormir.

Ele sentiu os olhos arderem.

— Histórias.

— Eu nunca te apaguei da vida dela. Só não soube como te devolver pra ela sem explodir tudo.

Antes que ele respondesse, um homem de camisa social amarrotada surgiu no fim do corredor. Era Daniel, o irmão de Lívia. O mesmo que, anos atrás, tinha assistido calado ao pai enxotá-lo da porta. Quando viu Mateus, travou.

— Você chamou ele? — perguntou para a irmã.

— Chamei.

Daniel passou a mão na nuca, exausto.

— Isso não é hora.

Mateus deu um passo à frente.

— Pra mim, já passou da hora faz três anos.

Daniel sustentou o olhar por dois segundos, depois baixou a cabeça.

— Você tem razão.

Aquilo desarmou o pouco controle que Mateus ainda tinha.

— Então por que ninguém me contou? Por quê?

Daniel olhou para o corpo pequeno da sobrinha dormindo.

— Porque nosso pai proibiu. Porque a casa virou um campo minado. Porque a Lívia teve uma gravidez difícil, depois depressão, depois um parto complicado. Porque ele dizia que você ia aparecer querendo confusão, guarda, vingança, qualquer coisa. E porque eu fui fraco. — A voz dele saiu amarga. — Eu escolhi o silêncio porque era mais fácil do que enfrentar aquele homem.

Lívia começou a chorar mais forte.

— Ontem à noite — Daniel continuou — ele me pediu água. Eu fui ajudar. Ele achava que ia melhorar, estava lúcido. Me chamou perto da cama e disse uma coisa que me deixou sem dormir.

Mateus não queria ouvir. E ao mesmo tempo precisava.

— O quê?

Daniel engoliu em seco.

— Disse que tinha errado. Que passou os últimos anos ouvindo a Sofia correr pela casa e vendo o seu rosto nela. E que cada vez que ela ria, ele sentia culpa. Muita culpa. Falou que, se morresse sem consertar isso, não ia ter paz.

Lívia fechou os olhos.

— Hoje de madrugada, antes de ser levado para cá, ele pediu meu celular. Pediu o número do seu. Eu achei que ele ia ligar. Mas ele desmaiou antes.

Mateus olhou para ela, devastado.

Então não tinha sido o destino. Nem coincidência. Nem coragem repentina. Tinha sido a morte, mais uma vez, empurrando os vivos para onde eles já deviam ter ido.

Sofia acordou de vez e levantou o rosto do ombro da mãe. Os olhos castanhos pararam em Mateus com curiosidade tranquila.

— Mamãe… quem é ele?

O mundo inteiro coube naquela pergunta.

Lívia abriu a boca, mas a voz não saiu.

Mateus sentiu o peito apertar até doer. Ele tinha o direito de explodir, de ir embora, de cobrar cada aniversário perdido, cada febre que não viu, cada primeiro passo que ninguém contou. Tinha direito ao ódio. Talvez até precisasse dele para sobreviver àquele instante.

Mas a menina estava olhando para ele.

Esperando.

E criança nenhuma merece pagar pelo deserto dos adultos.

Ele se abaixou devagar, ficando na altura dela.

— Eu sou o Mateus — disse, com a voz partida. — O das histórias.

Sofia franziu a testa como quem procura na memória. Então abriu um sorriso pequeno, tímido, e apontou para o ursinho.

— O que conserta brinquedo também?

Lívia levou a mão à boca e começou a chorar em silêncio.

Mateus quase desabou ali mesmo.

— Também — respondeu, engolindo o choro. — Às vezes eu conserto.

Sofia estendeu o ursinho para ele com a confiança absurda que só as crianças têm.

— O braço tá soltando.

Ele pegou o brinquedo com dedos trêmulos, examinou a costura aberta de um dos lados. Tirou do bolso o pequeno canivete de chaveiro que usava na assistência, puxou com cuidado um fiapo preso, fez um nó improvisado, apertou as patinhas e devolveu.

— Pronto. Agora ele aguenta mais um pouco.

Sofia abraçou o ursinho e sorriu como se aquilo bastasse para tornar o mundo seguro.

— Obrigada.

Mateus não conseguiu responder. Só assentiu.

Horas depois, quando toda a burocracia terminou e Daniel levou a mãe para casa, Mateus ficou do lado de fora do hospital com Lívia e Sofia. A noite estava úmida, e a cidade tinha aquele cheiro de escapamento, café velho e tristeza que algumas madrugadas carregam.

Sofia dormia no banco de trás do carro de Lívia.

Os dois estavam diante do portão, finalmente sozinhos.

— Eu não estou pedindo perdão hoje — Lívia falou. — Seria injusto. Tem ferida demais. Tempo demais. Eu só… eu só não queria que a Sofia crescesse sem você porque eu fui covarde uma vez.

Mateus olhou para o próprio reflexo torto no vidro do carro.

— Eu não sei como fazer isso.

— Eu também não sei.

Ele riu, cansado, com os olhos vermelhos.

— Você sempre odiou quando eu mentia, né?

Ela quase sorriu no meio das lágrimas.

— Sempre.

Mateus encarou a rua vazia por alguns segundos e então disse a única verdade possível:

— Eu ainda te amo. E estou com muita raiva de você.

Lívia assentiu, como quem aceita uma sentença merecida.

— Eu sei.

— E eu queria te abraçar e ir embora ao mesmo tempo.

— Eu sei.

— E eu não faço ideia de como ser pai de uma menina que já tem uma mochila, um ursinho e três anos de vida sem mim.

Dessa vez ela chorou com um tipo diferente de dor.

— Mas você quer tentar?

Ele fechou os olhos.

Dentro dele, havia luto pelo que nunca viveu. Havia amor. Havia raiva. Havia um homem quebrado olhando para a chance tardia de participar da própria história.

Então abriu a porta traseira do carro, ajeitou a cabeça de Sofia no encosto para que ela dormisse melhor e cobriu as pernas pequenas dela com a manta cor-de-rosa caída no banco.

Quando fechou a porta, respondeu sem olhar para Lívia:

— Eu quero começar por amanhã.

Lívia levou a mão ao peito, como se precisasse segurar o coração no lugar.

— Amanhã?

— Amanhã eu levo café. E você me conta tudo o que eu perdi. Sem me poupar. Sem mentira. Sem metade.

Ela assentiu, chorando.

— Tá.

Mateus já ia se afastar quando ouviu a voz sonolenta de Sofia, lá de dentro, chamando baixinho:

— Mateus…

Ele se virou na mesma hora e abriu a porta outra vez.

A menina, ainda meio dormindo, levantou o ursinho remendado.

— Amanhã você volta?

Mateus sentiu algo dentro dele, que estava morto havia muito tempo, respirar.

Passou a mão no cabelo dela com um cuidado quase sagrado.

— Volto.

Sofia fechou os olhos de novo, tranquila, como quem acredita.

E foi só quando o carro desapareceu no fim da rua que Mateus pegou o celular no bolso, abriu os contatos e ficou olhando para o nome dela na tela.

Lívia ❤️

Pela primeira vez em três anos, ele não olhou para aquele número com medo.

Apertou “editar”.

Pensou em apagar o coração.

Depois sorriu, cansado, dolorido, vivo.

E salvou de outro jeito:

Lívia e Sofia.

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